• Valmor Rabelo

A Tentação de ser Dono do Próprio Nariz


João Carlos, mais conhecido por Carlinhos, aprendeu ainda jovem o ofício de padeiro observando seu tio Nestor que era o dono da padaria Pão Bello. Todo o dia acordava cedo para deixar os pãezinhos prontos para os primeiros clientes da manhã. O pãozinho era de longe o mais gostoso da cidade. Carlinhos cresceu, casou e durante anos sua rotina era observar orgulhoso as filas de clientes que vinham comprar o seu famoso pão da padaria do seu tio.

O Seu Nestor também investiu em seu negocio e viu a padaria Pão Bello crescer, se organizar e se tornar a referência da cidade. “Vem gente até das cidades vizinhas saborear o nosso pão” – dizia o já velhinho dono da Pão Bello.

A mulher do Carlinhos e seu cunhado (tinha que ter um cunhado nessa estória) viviam dizendo: “Carlinhos, você é quem acorda cedo e faz tudo naquela padaria, mas quem ganha dinheiro mesmo é o Nestor. Isto é injusto”. E assim, algum tempo depois Carlinhos resolveu montar a sua própria padaria, afinal, ele é quem sabia fazer o melhor pão das redondezas. Juntou umas economias, algum dinheiro da poupança da vovó e em 3 meses estava inaugurada a Pães&Bolos – a padaria do Carlinhos.

O Carlinhos fez as primeiras compras em 30/60/90 dias. Investiu um pouco no jornal local e ficou esperando a clientela chegar correndo para buscar seus deliciosos pães.

É verdade que alguns clientes da antiga padaria foram provar a novidade mas era meio fora da rota de suas casas. Novos clientes começaram a chegar e com eles os primeiros cheques sem fundos. Carlinhos agora tinha que contratar e treinar seu pessoal, fazer compras e cobranças. Visitar o gerente do banco e o contador passaram a fazer parte de sua rotina, sem falar dos famosos clientes chatos devolvendo o pãozinho torrado ou branco demais. Enfim, depois de algum tempo, Carlinhos percebeu que ele era obrigado a fazer tantas tarefas (que ele não estava preparado para fazer) e que a única coisa que ele não fazia mais era o seu delicioso pão. (que era a sua melhor habilidade).


Esta é a estória de muitos empreendedores. Um mecânico ou eletricista (que resolve abrir sua oficina), um cozinheiro (que deseja abrir um restaurante), um medico ou dentista (que sonha abrir sua clínica), e outros tantos programadores, cabeleireiros, vendedores, escritores, artistas... que querem ser “donos do próprio nariz”. (que é uma maneira educada de dizer: tô de saco cheio de trabalhar para o meu patrão).

Infelizmente, a maioria destas pessoas pensa que “saber fazer o serviço” é o suficiente para “tocar o negócio”. Acreditam que entendem do serviço técnico da empresa em que trabalham, e por isso estão logicamente qualificados para dirigir um negócio. É claro que é fundamental conhecer o ofício, mas administrar uma empresa é muito mais do que conhecer uma atividade técnica.

Quando resolvemos abrir um negócio, uma dose de otimismo e uma energia renovada impede que vejamos a necessidade de nos preparar em assuntos aos quais desconhecemos. Afinal, os familiares e amigos já estão batendo nas nossas costas dizendo: aí empresário...resolveu ficar rico, heim?! E ficamos completamente inebriados pela realização do sonho.

Muitas pessoas assumem o trabalho que amam e o transformam em um emprego. O que até então era um prazer torna-se uma obrigação. Um turbilhão de outras obrigações desconhecidas, e até menos prazerosas, passam a exigir do empreendedor todo o seu tempo.

Se você deseja abrir um negócio prepare-se para administrá-lo. Procure as entidades empresariais, SEBRAE, ou até mesmo seu contador pode lhe trazer experiências valiosas. Pesquise sobre o segmento e aconselhe-se com um empresário amigo. Gaste mais tempo em informações e treinamentos antes e verá que gastará muito menos dinheiro depois.

Enfim, ser dono do próprio nariz significa ter o faro para buscar muitos outros aprendizados tão importantes para o seu negocio, quanto fazer o que você gosta ou sabe fazer.


Valmor Rabelo Filho

maio de 2004


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